segunda-feira, 27 de julho de 2009

Palavras ao vento


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A, primeira letra do alfabeto, é também a primeira letra da palavra amor e se acha importantíssima por isso. Com A se escreve arrependimento, que é uma inútil vontade de pedir ao tempo para voltar atrás, e com A se dá o tipo de tchau mais triste que existe: adeus.
Ah, é com
A que se faz abracadabra, palavra que se diz capaz de transformar sapo em príncipe e vice-versa.
Com
B se diz belo, que é tudo que faz os olhos pensarem ser coração; e se dá a bênção, um sim que pretende dar sorte.
Com
C, calendário, que é onde moram os dias e o carnaval, essa oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada. Civilizado é quem já aprendeu a cantar "Parabéns pra você" e sabe o que é contrato: "você isso, eu aquilo", com assinatura embaixo.
Com
D se chega à dedução, o caminho entre o "se" e o "então". Com D começa defeito, que é cada pedacinho que falta para se chegar à perfeição; e se pede desculpa, uma palavra que pretende ser beijo.
Tem o
E de efêmero, quando o eterno passa logo; de escuridão, que é o resto da noite, se alguém recortar as estrelas; e emoção, um tango que ainda não foi feito. E também tem Eba!, uma forma de agradecimento muito utilizada por quem ganhou um pirulito, por exemplo.
F é para fantasia, qualquer tipo de "já pensou se fosse assim?"; fábula, uma história que poderia ter acontecido de verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e , que é toda certeza que dispensa provas.
A sétima letra do alfabeto é
G, que fica irritadíssima quando a confundem com o J. G de grade, que serve para prender todo mundo - uns dentro, outros fora; G de goleiro, alguém em que se pode botar a culpa do gol; G de gente: carne, osso, alma e sentimento. Tudo isso ao mesmo tempo.
Depois vem o
H de história: quando todas as palavras do dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada.
O
I de idade, aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira.
J de janela, por onde entra tudo que é lá de fora; e de jasmim, que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar assim.
L de , onde a gente fica pensando se está melhor ou pior do que aqui; de lágrima, sumo que sai pelos olhos quando se espreme o coração; e de loucura, coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.
M de madrugada, quando vivem os sonhos. N de noiva, moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro. O de óbvio, não precisa explicar. P de pecado, algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou. Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê. E R, de rebolar, que é o que se tem que fazer para chegar lá.
S é de sagrado, tudo o que combina com uma cantata de Bach; de segredo, aquilo que você está louco para contar; de sexo: quando o beijo é maior do que a boca.
T é de talvez, resposta pior que "não", uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança; de tanto, um muito que até ficou tonto; de testemunha: quem, por sorte ou por azar, não estava em outro lugar.
U de Ui, um "Ai" que ainda é arrepio; de último, que anuncia o começo de outra coisa; e de único: tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
Vem o
V, de vazio, um termo injusto com a palavra nada; e V de volúvel, uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira.
E chegamos ao
X, uma incógnita. X de xingamento, que é uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém; e de !, única palavra do dicionário das aves traduzida para o português.
Z é a última letra do alfabeto, que alcançou a glória quando foi usada pelo Zorro. Z de zaga, algo que serve para o goleiro não se sentir o único culpado; de zebra, quando você esperava liso e veio listrado; de zíper, fecho que precisa de um bom motivo para ser aberto; e de zureta, que é como a cabeça da gente fica ao final de um dicionário inteiro.

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Uns atribuem a autoria a Pedro Bial, outros, a Adriana Falcão.
No vídeo, a narração é do ator Lázaro Ramos
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